Mensagem enviada para o Grupo de Apoio Psicológico
(Anónimo) Vivo num mundo de fantasia. Sou uma pessoa que pareço feliz, mas a tristeza que vai dentro de mim é enorme, pois sou gay e não o posso assumir perante a minha familia e amigos, pois vivo num meio pequeno e em que ser diferente é crime. Tenho medo da reacção de meus pais e amigos caso venham a descobrir a minha verdadeira orientação sexual. Tive várias namoradas mas apenas para disfarçar perante a sociedade as minhas verdadeiras paixões. Porque será que em Portugal é tão dificil em Gay assumir-se? Será que não compreendem que apenas sou diferente? Qual a maneira mais fácil de me assumir? Tou farto de esconder de toda a gente o que sou verdadeiramente. Gostava de conhecer pessoas que fossem iguais a mim e me ajudassem.
Resposta :
Caro amigo,
São raros os pais que imaginam a possibilidade de uma sexualidade "diferente" para os seus descendentes a não ser, eventualmente, quando surgem notícias desta temática (por exemplo: paradas e/ou casamentos gays/lésbicos). Perante tais eventos, geralmente, confrontam-se, com questões como:
"e se o meu filho (ou filha) for assim ?".
Todavia, este raciocínio esvai-se, na maioria das vezes, pouco tempo depois. No entanto, embora faça parte das suas principais preocupações, não significa que encarem com tranquilidade uma orientação sexual diferente para os filhos.
Num estudo realizado em Portugal verificou-se que 40,3% dos progenitores aceitam a homossexualidade como uma variação aceitável das preferências sexuais das pessoas ... (mães = 42,6% e pais = 38,1%). No entanto,o seu discurso também revelou, na maioria dos casos, um posição de exterioridade, ou seja, uma atitude face a outros, face a um grupo do qual não fazem parte.
Os gays e as lésbicas pertencem às mais diferentes idades, classes sociais, culturas, raças, nacionalidades e religiões, formando um grupo bastante heterogéneo. A incidência de homens predominantemente homossexuais, ou homossexuais exclusivos, na população mundial é de aproximadamente de 4% a 8% (Bancroft, 1989; Kinsey et al., 1972), estes valores descem para 2% relativamente a mulheres predominantemente homossexuais (Kinsey, Pomeroy, Martin & Gebhard , 1953).
Um dos aspectos mais importantes na vida dos jovens homossexuais é a forma como encaram a sua sexualidade. Muitos procuram reprimir o seu desejo por pessoas do mesmo sexo, devido à interiorização das pressões para o conformismo com as normas sociais vigentes. No entanto, estas experiências, na sua maioria, são infrutíferas pois são vivenciadas como não naturais e com baixa intensidade emocional.
Os gays e lésbicas passam por um processo de aceitação e divulgação da sua orientação sexual ou coming out que ocorre, normalmente, entre a adolescência e a jovem adultícia (este processo tem surgido cada vez mais cedo nas novas gerações). Verifica-se, cada vez mais, que os jovens que têm acesso à Internet assumem aí primeiro a sua homossexualidade e só posteriormente o fazem na vida real.
Antes da aceitação da sua orientação sexual o adolescente homossexual aprende a criar para si próprio uma grande variedade de "máscaras" ou "falsas personalidades" para comunicar com as outras pessoas. A razão básica para este comportamento parece ser o medo de ser descoberto e consequentemente descriminado. Alguns destes jovens mantêm indefinidamente o recurso a estas estratégias, reprimindo os seus desejos sexuais o que requer muito esforço e fantasia. Estar constantemente a ocultar uma orientação e sobretudo uma relação homossexual, pelo medo omnipresente de ser descoberto, pode ter como consequência graves perturbações psíquicas.
Usualmente, estes jovens experimentam a necessidade de discutir esta situação com alguém que lhes mereça confiança. Habitualmente, a primeira partilha dos sentimentos em relação à sua homossexualidade é feita a uma amiga na qual confiam, só posteriormente, e por diversos motivos, surge a necessidade de contar aos familiares. Este processo torna-se mais complicado quando o jovem suspeita que o afecto parental está condicionado à sua contribuição para o ideal da família heterossexual.
O meio envolvente pode ser outra fonte de angústia. Tal como grande parte dos grupos minoritários, as pessoas com uma sexualidade diferente tendem a ser vistas estereótipadamente (por exemplo: gays = homens efeminados; lésbicas = mulheres com comportamento de homens). Na verdade, ao contrário do racismo ou do sexismo, a homofobia é oficialmente admitida e, na maior parte das vezes, socialmente aceite. Na escola, por exemplo, alguns rapazes são apelidados de "meninas" porque preferem brincadeiras estereotipadas como femininas. Noutros casos, chegam a ser os adultos, por vezes familiares, a brindá-los com tal epíteto em tom depreciativo. Este tipo de comentários vai ganhando peso quantas mais vezes a criança o ouvir. É uma agressão que tem implicações, do ponto de vista psicológico, na sua auto-estima. Quando estes comentários surgem de um adulto com quem se tem uma relação de maior proximidade (e.g. pais), o efeito é ainda mais devastador. É que, durante a infância, a criança vai desenvolvendo uma ideia de como deveria ser para se sentir amada pelas figuras significativas e, ao mesmo tempo, a noção daquilo que é na realidade. Quanto maior for a discrepância entre ambas, menor é a sua auto-estima levando a uma sensação de desconforto e sofrimento.
É frequente, quando, ocasionalmente, um dos pais suspeita de uma possível homossexualidade de um dos filhos, fugir à mudança, guardando-a em segredo, inclusivamente do cônjuge. Habitualmente, são as mães as primeiras a suspeitar da homossexualidade do descendente, mas esperam que sejam estes a abordar a questão ou então mostram-se coniventes para manterem o segredo
Frequentemente, quando um filho ou filha assume a sua homossexualidade os pais descrevem nesta situação sentimentos do tipo "quem me dera que a terra me tivesse engolido" ou "a culpa é minha". Outras vezes, ficam tão abalados com a revelação que nem lhes conseguem dirigir a palavra.
Quando a homossexualidade de um dos filhos é revelada, existem certas estratégias que podem ser adoptadas entre estes e a família:
1) distanciamento, emocional e geográfico com a família de origem;
2) acordo tácito entre o indivíduo e a família em como não são discutidos aspectos da vida pessoal;
3) confessar apenas a um dos elementos com o acordo de que não será dito a mais ninguém.
No entanto esta atitude não soluciona o problema. A família conhece a situação e evita-a, transformando isto numa formula para a alienação dos que mais ama.
Este momento é, normalmente, visto sob perspectivas completamente divergentes por pais e filhos. Os pais interessados em manter o "Mito da família heterossexual" têm uma sensação de perda ... o descendente encara este momento como uma sensação de vitória e alívio. Sente-se animado por poder pôr de lado a "máscara" e os sentimentos secretos que tinha em relação aos seus progenitores, sente que finalmente "saiu do armário" ("coming out of the closet"). Ironicamente, este momento leva muitos pais a sentirem-se, agora eles, "fechados no armário". A quem contar ? O que pensarão os outros sobre eles enquanto pais e educadores ?
Baseados na sua educação, carregada de estereótipos negativos sobre gays e lésbicas, os progenitores acabam, provavelmente, por projectar nos filhos um futuro sombrio. O heterossexualismo em que vivemos contribuí para a ignorância sobre os casais com uma sexualidade diferente, mesmo dentro dos próprios casais homossexuais, que acreditam que as relações entre sujeitos do mesmo sexo estão confinadas ao insucesso.
Fica claro que por detrás do mal estar sentido por pais e filhos está, inegavelmente, uma questão cultural. Ao longo da história, tem-se procurado negar esta orientação sexual, classificando-a como anormal, estéril, depravada e inútil para a sociedade. Neste sentido, ser gay ou lésbica é ainda uma situação que acarreta dificuldades que os heterossexuais não têm, a começar pela constante necessidade de justificar a normalidade da sua sexualidade. Os sentimentos que advêm destes preconceitos devem, no entanto, ser encarados e problematizados, com apoio externo, se necessário for, para que os pais não sejam mais uma dificuldade acrescida na vida dos filhos, mas um apoio importante, alguém com quem podem e devem contar.
Se realmente consideras importante revelar à tua família a tua orientação sexual, aqui ficam algumas dicas que poderão ser úteis:
- Estás mesmo disposto/a a fazê-lo? Não precisas de o fazer já, se não prevês melhorias na vossa relação.
- Tens energia e auto-estima suficiente para superar uma eventual reacção negativa por parte dos teus pais (não é aconselhável fazê-lo num momento em que estejas deprimido ou "em baixo");
- Se dependes financeiramente dos teus pais e suspeitas que eles te podem cortar o dinheiro que necessitas para os estudos ou forçar-te a sair de casa, é melhor esperares...
- Não utilizes a tua orientação sexual como uma arma em momentos de raiva ou durante uma discussão;
- Opta por uma altura em que os teus pais não estejam com problemas como a perda de familiares, problemas de saúde ou desemprego, para lhes contares;
- Quando fores contar, aos teus pais, começa por lembra-los do teu amor por eles;
- Explica-lhes que não tens sido capaz de ser completamente honesto/a para com eles e de que não gostas da distância que tem aumentado entre vocês nos últimos anos;
- Quando contares lembra-lhes que és a mesma pessoa hoje, só que mais feliz por teres tido a coragem de o ter feito...






































