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Artigos do Psicoterapeuta Dr. José António Machado Teixeira
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"O homossexual e o peso da acusação da figura materna"
Logo que uma pessoa se sente só ou "separada",a angústia apodera-se dela e tanto faz que seja uma criança de seis meses como um adulto de quarenta ou mais anos.
Todos nós somos movidos pela necessidade de segurança e de bem estar e a nossa maior segurança é-nos dada pelo amor e protecção da mãe.
Portanto segurança essencial é igual a conservar o amor da mãe assim como angústia equivale à sensação de ter perdido esse amor,de ser moralmente rejeitada,e neste caso a sociedade assume simbolicamente o papel da mãe.
"Se cometeres um erro,se mostrares a tua verdadeira personalidade,deixarei de gostar de ti" ou seja"abandonar-te-ei"!
O homossexual sente obviamente que foi "abandonado" que cometeu uma falta e que deve pagar o que é justo, para ele ou ela é a lei da mãe/sociedade que já não gosta dele e que o repudia:Eis algumas declarações de analizandos meus homossexuais:"Minha mãe dizia-me sempre:Se desobedeceres,deixarei de gostar de ti.....!"De cada vez que praticava alguma"maldade",minha mãe amuava como se eu fosse um criminoso/a....!"Se continuares a ser mau/má abandonar-te-ei à esquina de uma rua qualquer,e Nosso Senhor tambem,o diabo virá buscar-te"-"Até à idade de 15 anos ouvi a minha mãe dizer-me;desobedeceste-me,só voltarei a falar-te quando me tiveres pedido perdão.Nesses momentos havia em mim muita angústia mas tambem muito ódio.Nunca era eu próprio.Devia ser sempre como a minha mãe queria que fosse e sei muito bem que,apesar da minha hostilidade contra ela,os seus amuos angustiavam-me tanto que fazia fosse o que fosse só para lhe agradar e apercerbo-me agora a que ponto tudo isso era profundamente inconsciente...!"
Conforme o que acabámos de ver a atitude da mãe/sociedade resume-se muitas vezes nisto:-Se não desempenhas o papel que eu exijo de ti,se infrigires a minha lei,se não fores o que eu quero que sejas,se não fizeres o que eu quero que sejas,se não fizeres o que eu quero que faças,abandonar-te-ei.Terás a sensação de ser moralmente culpado/a.Não te perdoarei e não te aceitarei de novo senão quando te submeteres à minha lei.
O resultado lógico deste procedimento é o seguinte:Sempre que o sujeito comete uma falta,ou antes um erro,sente-se moralmente culpado,logo excluido,e ameaçado por perder o amor da mãe,leia-se a aceitação social,e ao mesmo tempo,por perder todo o sentimento de segurança.
E pouco a pouco,implacavelmente,como uma tenaz,a neurose instala-se e o homossexual rejeita o direito de viver,de ser feliz,de ter o seu lugar por direito próprio na sociedade, a espontaneidade,a autenticidade,a autonomia morrem e a opinião dos outros torna-se um molosso com o qual há que contemporizar a cada momento.
A relação com o psicoterapeuta surge então como a procura desesperada de recuperar o direito da sensação de ser amado,seja em que ocasião e lugar for e com quem for,aliás acontece muitas vezes no decorrer de uma psicoterapia que o analisando inconscientemente agressivo se mostra de uma submissão exemplar e de uma delicadeza a toda a prova.Trata-se pois,de uma forma de resistência,o sujeito resiste,uma vez que dar vazão à sua agressividade representa para ele um grave perigo,o de ser desprezado e julgado pelo psicoterapeuta para o qual transferiu todo o peso e significado simbólico da mãe/sociedade
Reside aqui o papel preponderamte do psicoterapeuta como figura contentora,despenalizadora,desconstrutiva e reconstrutiva,ou seja reparadora da sanidade mental do sujeito.
"O seropositivo e a auto-imagem corporal"
À representação do corpo sobrepõe-se, completando-a, a representação da pessoa,ou seja ao self corporal sobrepõe-se o self mental,isto é a representação global do sujeito,imagem do próprio,do todo pessoal somato-psiquico e social,composição do esquema corporal alargado quer à identidade própria quer à do papel social.
Nos doentes seropositivos as alterações morfológicas que incluem lipodistrofia periperal e acumulação de gordura,bem como a percepção que cada doente faz da sua condição de desfiguração e consequente estigmatização social,que é tida como uma erosão da imagem corporal, torna publico o seu estatuto serológico de VIH positivo.
Deste modo nos doentes seropositivos com deformação e defeito egóico o processo psicoterapêutico tem de realizar todo um trabalho de desidentificação da identidade patológica e ocupar um tempo de maturação e desenvolvimento de processos de crescimento normal que ficaram inibidos.
A psicoterapia é na época actual uma teoria da personalidade com o seu método próprio de estudo e tratamento.
No self do paciente fica um vazio,um buraco que precisa de amor,só encontrado na relação com o psicoterapêuta,para um preenchimento estrutural, estruturado e estruturantre, mas o sujeito ignora e consequentemente não procura satisfazê-la.
Como resultado da insatisfação existente mas ignorada,gera-se uma revolta imensa,sem finalidade,uma raiva em regra apenas sentida como tensão,desconforto ou irritabilidade e quase sempre não reconhecida,raiva difusa e invasiva que carece de um acompanhamento psicoterapêutico interpretativo e descodificante conduzindo o paciente a toda uma tomada de consciência dos motivos da sua própria raiva,de forma gradual e sistemática levando-o a uma meta-cognição de todo um processo de auto-aceitação de si próprio, do temor do julgamento social e da necessidade urgente de amor, aceitação e integração social.
Ora a personalidade constroi-se a partir de dois tipos de elementos,internos e externos,os internos vêm dos instintos, dos desejos próprios e das realizações individuais enquanto que os externos vêm da identificação com os modelos.
É todo este trabalho que tem de ser levado a bom termo numa psicoterapia focada no pânico da distorção da auto-imagem,contrapondo-se-lhe a conciliação com essa própria auto-imagem,para o que é imprescíndivel que se criem condições nas quais ou através das quais as pessoas tenham acesso paralelamente a um acompanhamento psicoterapêutico e a uma cirurgia plástica reconstrutiva.
''Reacção à informação de que se é portador de VIH''
O drama do momento em que o sujeito é informado de que contraiu VIH é a queda,após um primeiro processo defensivo de negação,num estado de depressão!O drama do depressivo é o facto de,saudoso do que està distante,do remoto,não poder investir no presente,no recente,no actual.
A sua prisão ao passado não lhe permite prender o presente e nele encontrar interesse e assim o tempo futuro é fantasiado como um tempo de revisitação do passado ou de ressurgência deste e não como deve ser,ou seja,de criação de um tempo novo e diferente,do"virar de uma página"após o encarar da realidade.
O depressivo sofre então de um verdadeiro síndrome de nostalgia ou saudade. Mas no síndrome da saudade o sujeito mantém o desejo e a crença de recuperar o perdido,na depressão a crença,então,vacila,e é esta tendência à recuperação do passado que caracteriza a depressividade,por isso a sua "cura" espontânea é a esperança na recuperação do passado que barra o deslizar para a autêntica depressão,o que ao mesmo tempo limita o investimento do actual,com plena fruição do prazer de existir.
A depressão é o resto de uma relação mal vivida e de um tempo mal aproveitado,o passado e as relações jamais foram vividas na mesma plenitude,na medida do desjo e do fantasma.No ponto de vista da realidade interna,da vivência afectiva,foi um passado de insucesso,de incomplrtude,daí a necessidade de voltar atràs,a vontade de regressar,o desejo de refazer,a compulsão de repetir.
O abandono do passado não é possível porque corresponderia a uma cicatriz defeituosa do Self e o narcisismo não permite isso,prefere a ferida aberta à marca indelével.Só uma restrururação do investimento narcísico a qual comporta ao longo de um processo psicoterapêutico a recuperação mnésica da alegria dos primeiros anos de vida, das vitórias da infância e da adolescência,da recordação de ter sido amado ali e por alguém,reconhecido por si próprio e pelos outros,pelo que se sentiu capaz de fazer e pelo que mostrou ser capaz,permite a saída da deficiência narcísica e com ela da depressividade e da repetição nemótica.
É o recalcamento da agressividade para os objectos do passado,revivida na transferência com o psicoterapêuta,que possibilita a recuperação da força do Eu,mais livre então de amar o seu psicoterapêuta e daì partir para o seu presente,na sua vida actual e refeito então o passado na certeza da eficiência do tratamento que lhe é proposto,da consideração e do conhecimento da circunstância,o passado pode passar sem vergonha para a história e então,mas só então,o sujeito pode encarar de frente,olhos nos olhos o presente,revisitando o passado apenas para compreender o presente e encarar o futuro sem a antecipação de receios face a esse mesmo futuro mas viver e desfrutar plenamente o presente como uma dádiva.
''A psicoterapia como meio libertador e curativo da culpabilidade inconsciente''
Num acompanhamento psicoterapeutico de um homossexual o sentimento inconsciente de culpa ou culpabilidade inconsciente é uma noção psicoterapeutica nem sempre facil de entender,pela existencia de uma certa incongruencia normativa,pois é dificil admitir a realidade de sentimentos inconscientes,o que se sente é,por definição consciente.O que se sentiu é que pode ter mergulhado no inconsciente,e ficar como residuo dinâmico condicionante e propulsor de atitudes ou comportamentos cuja motivação real permanece inconsciente:a culpa outrora sentida,e agora ignorada,é que persiste como motivo oculto da conduta actual que leva o sujeito a refugiar-se no "armário" ou mesmo a assumir atitudes homofóbicas tanto nos elementos do sexo masculino como feminino,a fim de afastar de si as suspeitas da sua homossexualidade e no fim a procurar o tão desejado amor e aceitação que procura desesperadamente nos outros,familiares e sociedade em geral,como um pedido de desculpa por ser como é!
O conceito de necessidade de punição,equivalente ao de sentimento inconsciente de culpa,obedece a uma nomenclatura menos incongruente e adquire uma correção e clareza suficientes se acrescentarmos a necessidade de punição por motivos inconscientes,descrevendo assim,com precisão,o comportamento do chamado masoquismo moral.
Esta culpa inconsciente ou inconsciência de culpa ignorada como vector no sentido físico preciso de força dirigida com expressão somática de toda a ansiedade e mau estar,de um modo mais lato do comportamento vai inscrever-se,por efeito da regressão,na conduta transferencial e de uma forma sondável pelo psicoterapeuta e reconhecivel pelo sujeito competindo ao primeiro encontrar o momento preciso em que o perceber dessa culpa actuante pode coincidir com a capacidade do sujeito para a sua consciencialização.
Esse tempo,essa hora de interpretação,determina-se frequentemente pela coincidencia de emoções actuais vividas na transferência com emoções de uma recordação do passado infantil,de uma fantasia ou de um sonho.
Em todo o processo psicoterpeutico,que é em si mesmo um acto de amor e de colaboração e trabalho de equipa entre psicoterapeuta e sujeito é fundamental a eficácia da interpretação do psicoterapeuta.
Raramente,no entanto,a interpretação eficaz é possivel sem um conjunto de dados,oriundos de vários contextos,que permita um enunciado suficientemente prenhe de significância.Um ou escassos elementes concordantes são,em regra,insuficientes para produzir o efeito da evidência,são no entanto passos no caminho interpretativo,intervenções preparatórias e de aproximação que vão aludindo à meta final,ao significado preciso da ulterior interpretação,entretanto cuidadosamente elaborada que conduz à libertação,à plenitude do assumir da sua vida afectiva,da sua escolha por direito próprio e que só a psicoterapia eficaz pode garantir,evitando o recurso à depressão,a uma vida frustrante ou em último caso ao suicídio.
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